A eclesiologia católica e o Protestantismo

Cidade do Vaticano

A Igreja é prenunciada, enquanto projeto de salvação e redenção do gênero humano, já no Antigo Testamento. A palavra do Novo Testamento para Igreja (grego “ekklesia” – “assembleia”, “reunião”, “convocação”) está enraizada em uma noção veterotestamentária de “assembleia”. De fato, cremos que esta palavra é empregada enquanto explanação da raça humana como família de Deus, além de uma porção do “povo escolhido”, tal como no antigo Israel (embora não mais em sentido exclusivista, mas como real comunhão de um povo que crê).

Na realidade neotestamentária, a Igreja ganha um significado mais profundo, de verdadeira relação e comunhão; não mais um organismo cujo objetivo último é separar uma pequena porção, mas sim congregar uma grande multidão, unida em torno dos sacramentos, das obras de caridade e do testemunho de fé. Um senso de universalidade e abertura é agregado à Igreja, dotada de uma missão que não é barrada por preceitos legalistas. A Igreja está realmente imersa na realidade humana, embora sem jamais apartar-se de Deus.

Com o advento do Protestantismo no Brasil nas últimas décadas, a eclesiologia cristã sofreu um duro golpe, sendo profundamente empobrecida; dizem muitos que “Não é preciso crer em igrejas, basta ter fé em Jesus como Senhor e Salvador pessoal”. Deixando de lado a real intenção de quem repete constantemente esta sentença – quer em decorrência de uma visão eclesiológica falha, quer pelo desejo de, veladamente, transmitir uma mensagem de cunho relativista –, ela não faz sentido (ou pelo menos não deveria fazer) para nós. A eclesiologia católica tradicional se distingue em muitos aspectos da visão protestante, coincidindo, porém, em alguns pontos (dos quais pretendo tratar em um futuro estudo).

Convém elucidar, num primeiro momento, que a Igreja não é um mero “templo” ou “edificação”: a Sagrada Escritura jamais empregou a palavra “igreja” em um sentido tão vago e limitado quanto este. Mesmo quando falamos de “igreja” em sentido particular – uma paróquia, uma diocese – reconhecemos que ali está verdadeiramente presente uma porção da única Igreja de Cristo, formando, com todas as comunidades católicas dispersas pelo mundo, através da celebração eucarística, o único rebanho do Senhor. Trata-se de uma divisão em sentido meramente territorial, embora jamais essencial. Os protestantes, erroneamente, deduzem que a Igreja enquanto estrutura visível é um aspecto ambíguo, disperso e alheio à realidade invisível da mesma, onde, em tese, se situa verdadeiramente a Igreja enquanto Corpo de Cristo. Para o Protestantismo, o mistério da Igreja não se dá através de uma relação verdadeira entre Céu e terra, mas de algo que, na terra, não expressa verdadeiramente o que se inicia no Céu: em outras palavras, crê que a Igreja não pode ser objetivamente reconhecida em sua estrutura visível.

Visando salvaguardar esta dimensão visível da Igreja, muitas foram as definições imortalizadas pelo Sagrado Magistério, retiradas – ou inspiradas – da Sagrada Escritura e da Tradição Apostólica.  Algumas delas são: “aprisco”, “vinha” (do Senhor), “Esposa do Cordeiro”… todas elas se completam e, juntas, expressam os diversos aspectos inerentes à Igreja. Tais definições e seus respectivos aspectos devem manifestar-se visivelmente, de modo que a religião autêntica seja reconhecida por todos.

Mas a definição por excelência – que, me parece, resume e esclarece todas as demais – é de “Corpo Místico de Cristo”. Tal definição expressa o mistério da Igreja enquanto realidade visível e humana, e, ao mesmo tempo, divina e sobrenatural. É verdadeiramente um corpo, porque tem Cristo como Cabeça (cf. Colossenses 1,18), estando unido a uma estrutura que se manifesta através das relações sacramentais e que se consuma numa comunidade de fé. Uma sociedade divina (em sua origem e essência) e humana (em suas relações concretas e estrutura visível).

Como se vê, a definição católica é completa porque não negligencia ou omite o papel vital exercido pelos membros do povo de Deus na difusão do Evangelho, que, unido, forma verdadeiramente a Igreja de Deus, em plena comunhão com os irmãos que nos precederam na caminhada de fé (as Igrejas padecente e triunfante). A eclesiologia católica valoriza a interdependência entre os membros do povo de Deus, a unidade sacramental e a profissão de uma única fé; desta forma, ela é apresentada como um todo coeso, substancialmente uno, e não vago, disperso e confuso (conforme a visão protestante).

Cremos em Cristo e, por isso, também na Igreja; e cremos na Igreja porque cremos em Cristo. Ambos – Cabeça e Corpo – formam a estrutura que denominamos Igreja, indispensável para a salvação das almas.

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