O Paraíso Perdido e a Utopia Marxista

Paraíso Perdido

Imagem: Morjer’s Art

A repulsa de um ateu esquerdista pela fé cristã como “fantasia”, “conto de fadas” e outras definições similares é um tanto estranha – afinal, o Marxismo, como qualquer utopia, é essencialmente messiânico: pressupõe a realização de uma realidade irrealizável. É inapto em sua análise dos seres humanos e de suas singularidades e relações. A sociedade ideal, que virá num amanhã incerto, é enaltecida em detrimento da sociedade real e seus respectivos problemas e soluções. O que se espera do Marxismo e de sua aplicação prática é, literalmente, um milagre.

O Cristianismo é a antítese desta forma de pensar e agir. O paraíso que os comunistas desejam conquistar é, para o cristão, o paraíso perdido; a bondade inerente ao homem é, para nós, a bondade corrompida pelo pecado e sujeita a um processo natural de degradação quando apartada de sua origem e fim últimos – Deus. A fé cristã, com seu pessimismo natural frente às virtudes humanas, foi capaz de dar origem ao sistema universitário e a uma cultura ancestral de onde a Civilização Ocidental nasceu e se desenvolveu. Com os olhos fixos em Deus, a Cristandade jamais deixou de estar atenta às necessidades dos povos. Seu foco era o hoje; e trabalhando com disciplina e constância, alcançou resultados incríveis. A catedral é a expressão artística máxima do homem que, unido a Deus, interpreta a realidade do alto, além de si mesmo; e, uma vez elevado em um contexto de realidades transcendentes, foi capaz de julgar a sociedade a partir de uma visão unificada derivada de um conjunto complexo de relações espirituais. Isto contrasta bastante com a crueldade do gulag, da repressão política e da miséria institucionalizada pelos Estados comunistas.

A virtude maior de um cristão é reconhecer a possibilidade do bem presente em detrimento do improvável paraíso futuro. O paraíso foi perdido. Para ele, será sempre uma atitude prudente e lúcida viver no mundo real, tentando resolver problemas reais com soluções reais.

Marxismo e Comunismo: Uma Breve Reflexão

Foice e Martelo

Quando se investiga os diversos aspectos do marxismo, bem como os sistemas políticos dele derivados, descobre-se que sua estrutura é um complexo corpo que se desenvolve através de processos muito específicos. Trata-se de um sistema filosófico, ideológico, econômico e político ordenado de maneira homogênea; logo, não se trata de um organismo fragmentado e sujeito a diversas interpretações – que, quando existem, não passam de um desenvolvimento acidental de variação estratégica de aplicação muito mais que uma ruptura com os seus postulados fundamentais. A sociedade ideal, sugerida por Marx e demais teóricos de sua proposta social, econômica e política, decorre de um longo processo de construção contínua de uma pretensa sociedade utópica – a absoluta igualdade econômica e o fim do caráter político do Estado.

Os marxistas veem no comunismo a concretização da sociedade ideal; como dito anteriormente, tal sistema se manifesta como um sistema em contínua construção e atualização. Note-se que a ideia de uma “sociedade perfeita” é sempre relegada para um futuro parcialmente próximo, embora o núcleo do marxismo consista exatamente no fervilhar de uma revolução derivada do conflito de classes. O marxismo – bem como os sistemas políticos dele derivados – dividem os diversos núcleos sociais para, à partir da fragmentação dos mesmos em grupos cada vez mais dispersos e menores, enfraquecê-los e, consequentemente, estabelecer suas metas de ordem política, social e econômica. Com isto, não se deve concluir que o marxismo crê somente em um conflito de classes natural, que se origina simplesmente de uma desordem socioeconômica e de um conflito histórico de classes díspares. Uma ação ideológica e política deve provocá-la, ou, ao menos consolidá-la.

Logo, a destruição como causa da reconstrução do status quo social é a própria essência, embora paradoxal, do pensamento revolucionário marxista: a antiga ordem com suas convenções, instituições e cultura devem ruir sob o poder da foice e do martelo. Mas esta “reconstrução” é uma mera estratégia de conquista; a divisão da sociedade e seu enfraquecimento por intermédio de variados conflitos é uma etapa necessária para a implantação de uma nova ordem de poder e relações sociais.

Nesta fantasiosa luta entre “opressores” e “oprimidos”, símbolos em si mesmos neutros, uma vez despidos de seu caráter meramente técnico, são estampados em bandeiras partidárias, e não mais são utilizados para construir, mas somente para destruir;  estes mesmos instrumentos – como a foice e o martelo – que simbolizam, em primeiro lugar, a dignidade do trabalho e a prosperidade da nação, mas que, para os revolucionários, simbolizam a revolta, a morte e a pilhagem. O socialismo fez das ferramentas do trabalhador comum símbolos sacros do culto do ódio, da guerra, da divisão e da destruição.

Naturalmente, enquanto sistema utópico, o marxismo baseia-se em uma leitura superficial e reducionista da realidade como um todo; negligencia os aspectos culturais, psicológicos, econômicos e morais das diversas sociedades, desconsiderando suas respectivas singularidades e medindo-as partindo de sua própria leitura sociológica do mundo e das relações que nele ocorrem. Não é comedido em sua análise geral, e por isso mesmo falho em suas conclusões. Daí que se conclui que a ineficiência prática do marxismo não deriva propriamente da má aplicação de suas ideias, mas sim que a ineficiência de suas ideias decorre de um sistema que já nasce corrompido desde o núcleo de sua estrutura analítica. Com isto, diz-se que as ideias se corrompem não devido a uma aplicação prática oriunda de pessoas ou sistemas inaptos, mas de um anterior processo de degradação interior, cujas falhas manifestam-se através destas mesmas ideias – em outras palavras, a corrupção da ação nasce de uma falha teórica.

A essência materialista e coletivista do marxismo esbarra ainda nas concepções antropológicas tradicionalmente estabelecidas, onde o ser humano é, em suma, definido como um complexa estrutura racional e dotada de diversas dimensões que convergem para a formação de um “todo orgânico”, situado na pluralidade de si mesmo e formando uma identidade única. Invertendo uma correta e abrangente leitura antropológica da humanidade e de suas diversas dimensões, define-a não como este complexo “todo orgânico”, dotado de uma estrutura pluridimensional inata – valores morais e éticos, pluralismo político, singularidades psicológicas, etc. Cada indivíduo, embora independente, é condicionado a habituar-se aos padrões socialmente estabelecidos e, por isso mesmo, dotado de um consenso inerente quanto à ordem social, embora degradado por sistemas econômicos, culturais e políticos, como o capitalismo e a ordem moral cristã. Assim, deduzem que padrões sociais das mais diversas ordens são os responsáveis pela degradação do homem, que, em si mesmo, é bom.

Nesta estranha estrutura, essencialmente autoritária e irrealizável, a igualdade é apenas uma fantasia ideológica para a imposição de uma nova ordem, onde os revolucionários – não necessariamente o proletariado – compõem uma nova classe de privilegiados; desta forma, não há uma ruptura real com a antiga ordem, mas a substituição da antiga por uma nova, porém mais restritiva e repressiva forma de tirania.

Engana-se quem crê na bondade dos pretensos “revolucionários igualitaristas”; estes desejam somente o apoio das massas (que facilmente se inclinam às promessas do “paternalismo estatal”) com o intuito alcançar uma posição de poder. Uma vez que este poder é alcançado, as massas desiludidas serão conduzidas de volta à granja, como animais, abrindo novamente os olhos para a dura realidade deste mundo com todas as suas misérias – para as quais não existe uma solução definitiva; a medida de toda ação social deriva de estados singulares que não podem ser submetidos a métodos prévios de resolução.

A “sociedade ideal” jamais terá lugar no hoje – pois o hoje comporta somente a realidade concreta; a construção do “paraíso socialista” ficará para amanhã… o amanhã das irrealizáveis utopias, dos sonhos que nem o mais esperançoso dos homens espera alcançar.

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No próximo artigo, tratarei da infiltração do Marxismo na Teologia, síntese que deu origem à Teologia da Libertação – além da incompatibilidade entre a ideologia marxista e a religião católica.

Blog em recesso

familia

 

Caros internautas,

Catolicismo Puro & Simples entrará em recesso a partir de hoje (25/12/15). As atividades serão retomadas a partir do dia 10/01/16. Até lá, a moderação de comentários permanecerá inativa. Entretanto, o e-mail do blog permanecerá ativo para o envio de sugestões e dúvidas e geral.

Desejo a todos um feliz e santo Natal, com as bençãos da Sagrada Família de Nazaré.

Cristianismo e sofrimento

Jó

INTRODUÇÃO

O sofrimento continua sendo uma questão angustiante quando confrontado com a religião. Afinal, como pode um Deus onibenevolente permitir o sofrimento de Sua mais amada criatura, criada à Sua imagem e semelhança? Não seria contraditório crer em um Deus pleno em bondade e amor frente às desgraças – quer naturais, quer provacadas pelo homem – que assolam o nosso mundo?

E mais: pode a fé cristã oferecer uma resposta razoável para o sofrimento? O que o Cristianismo tem a dizer sobre as profundas dores da humanidade?

Naturalmente, o sofrimento não é uma realidade que escapa à fé cristã. Crer é, de certa forma, sofrer; estas duas realidades estão, à luz da fé cristã, entrelaçadas. Num primeiro momento, a fé exige a conversão: esta causa um sofrimento decorrente da ruptura com uma série de comportamentos incompatíveis com a revelação divina; o convertido deve fazer morrer o “homem velho”, sepultando-o após a recepção do Batismo e a aceitação da Palavra de Deus. Deve, com o auxílio da graça, progredir de virtude e virtude. Coloca-se numa “via purgativa”, onde, após reconhecer a própria miséria, sofre por amor a Deus, travando uma luta diária contra o pecado.

O crente também sofre mediante as injustiças deste mundo, do pecado, do ódio a Deus e, acima de tudo, diantes das tribulações que testam sua fé. Como dito acima, crer é sofrer. Não há verdadeiro progresso na vida espiritual quando não se renuncia às próprias más inclinações. E este combate deságua na realidade do sofrimento. Logo, é fato que os cristãos comprometidos se deparam constantemente com a dura realidade do sofrimento e do mal atuante no mundo.

Ora, mas ainda que o sofrimento seja inato à vivência da fé, isto não responde à grande questão: como um Deus bom pode permitir o sofrimento?

Antes de mais nada, devemos reconhecer que existem bens relativos e o Bem Absoluto – sendo este o próprio Deus. A vida, por exemplo, é um bem de valor inestimável, mas ainda assim um bem relativo; a vida material é finita, além de não ser um fim em si mesma.

Podemos expor outros bens relativos: o conhecimento, a vontade, os sentidos… eles nos proporcionam o dom da existência, que é em si um grande bem, embora também relativo. Todos os aspectos da vida humana, em sua orgânica interdependência, voltam-se para a meta final, que é o Sumo Bem: Deus. Deve-se, portanto, concluir que a expectativa de uma vida eterna, gozando deste Bem supremo, é o ápice da realização humana, sendo impossível ir além disto. Deus não é um bem, mas o Bem por excelência.

Convém, pois, elucidar que a fé em Deus, partindo de uma perspectiva cristã, não contrapõe a ausência de bens relativos – como alegrias oriundas de fatos concretos da vida humana, isto é, gozos materiais momentâneos – à infinita bondade de Deus, já que é Ele mesmo o Bem último a ser alcançado. A ausência de bens relativos é ofuscada pela “posse” deste Bem absoluto.

Mas o sofrimento permanece sendo uma intransponível e angustiante realidade. Nem mesmo o Verbo divino – nosso Senhor Jesus Cristo – deixou de experimentá-lo, tanto física quanto psicologicamente. Todos os dias, um incontável de pessoas se vê diante do sofrimento, e muitas vezes são incapazes de não questionar a própria fé em meio às tribulações. Uma coisa é certa: todos os seres humanos sofrem. A vida é marcada por difíceis momentos de transição – como o início da vida adulta, que traz consigo grandes responsabilidades –, crises existenciais, dificuldades relativas à vida social e, nos momentos mais dolorosos, a perda irreparável de um ente querido.

O próprio Cristo experimentou em Sua vida a rejeição pública, a incompreensão de seus parentes, o medo e os mais terríveis sofrimentos físicos acompanhados de humilhações públicas. Paradoxalmente, a dor da cruz é a consumação do Sumo Bem, do Deus autor da vida que dá a própria vida pelos seus.

A vida de Cristo mostra como Deus não quis esquivar-Se da realidade do sofrimento: sofreu na Pessoa de Seu Filho Unigênito, participando das dores humanas de maneira profunda e marcante. Sendo o Senhor do universo, não poupou nem mesmo o próprio Filho desta dura realidade, pois sabia que este sofrimento relativo seria o triunfo do Bem absoluto.

Assim, diante do problema do mal e do sofrimento, a imagem do Filho de Deus na cruz nos daria uma nova perspectiva sobre esta realidade: mostrou que a “divinização” do homem é vã; não é possível enxergar além fazendo-se Deus. Convém ao homem fazer-se perfeitamente humano através do Deus que se fez homem, e, a partir Dele, enxergar além. Não poupando Sua vida de valor infinito, o Verbo fez com que percebêssemos que nossas vidas finitas não devem ser poupadas quando aspiramos a um bem maior: Deus.

Entretanto, não basta expor o sacrifício de amor do Verbo encarnado como uma resposta adequada ao sofrimento humano – Cristo reinterpretou o sofrimento através de Sua vida, dando-lhe um novo significado; porém, uma nova perspectiva acerca do sofrimento não dissolve a aparente incompatibilidade entre um Deus de inesgotável bondade e o problema do mal. Como duas realidades ambivalentes podem coexistir sem contradições?

A ORIGEM DO MAL: UMA RESPOSTA TEOLÓGICA

Uma das realidades mais dolorosas para a fé cristã é a consciência de que a humanidade tem uma responsabilidade moral em relação ao mal existente no mundo. Os noticiários, jornais e revistas evidenciam isto. Crimes terríveis e inexplicáveis revelam o lado mais obscuro do ser humano. Guerras por razões espúrias, corrupção política, crianças violadas e exploradas e outros escândalos, apesar de sua frequência supreendente, ainda são capazes de chocar e despertar a nossa indignação. Contrastando com tal realidade, o plano de Deus consiste no desejo de que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (ITimóteo 2,4).

A revelação cristã oferece uma resposta: o mal não fazia parte do plano de Deus para a humanidade. A criação original era “muito boa”, como revela todo o relato da criação do Livro do Gênesis (Gênesis 1,1). Em algum momento, a humanidade abusou de sua liberdade natural, e a entrada do pecado no mundo significou uma nova etapa na história humana. Não convém, no presente estudo, alimentar as árduas discussões em torno da historicidade de Adão e Eva; entretanto, eles ilustram a responsabilidade moral da humanidade acerca do pecado. O Espírito Santo, através dos autores sagrados, nos comunica que o ser humano, dotado de consciência moral e liberdade, é um agente capaz de causar o mal e o sofrimento no mundo.

Mas poderia Deus evitar que a humanidade escolhesse caminhar em estradas tão tortuosas? Lembremo-nos de que Deus, em sua bondade inesgotável, infundiu em nossos corações o conhecimento de uma lei natural, capaz de apontar para a verdade, a virtude e o bem – e mesmo o conhecimento do Criador do universo. O mal será sempre uma escolha individual, uma vez que Deus não cessa de conceder graças e meios para que o pecado – e o sofrimento dele decorrente – seja evitado.

É comum encontrar pessoas que se perguntam: “Por que Deus não criou a humanidade moralmente perfeita, incapaz de pecar?”. Ora, isto não parece uma resposta adequada, além de um tanto incompatível com a nossa natureza. O conceito de liberdade é caro para a fé cristã, de modo que não parece surpreendente a certeza de que escolhas livres possibilitam escolhas erradas. Ao privar-nos da capacidade de escolher entre o bem e o mal, Deus criaria uma humanidade “programada”. Em outras palavras, seríamos algo semelhante a robôs, e não seres humanos.

O Deus que tudo pode – como criar um universo a partir nada – não pode o impossível, como obrigar alguém a amá-Lo. Deus jamais fará algo para coagir a decisão dos homens, embora deseje comunicar o Seu amor infinito a toda a humanidade. Entretanto, amor oferecido não implica na consequência de um amor correspondido. A partir da liberdade inata à nossa natureza, o mal tornou-se possível, mas somente nossos atos concretos são capazes de tornar o mal real. E a rejeição à eterna bem-aventurança oferecida por Deus é o mal em sua forma mais extrema; a privação eterna do Sumo Bem, além de irreparável, permite que todos os males desejados se manifestem em sua plenitude.

O mal tornou-se real no mundo em decorrência de nossas escolhas. Algo do que denominamos “pecado original” tem sido transmitido à humanidade de geração em geração, o que o torna presente de modo perene em nossa história. Entretanto, caminhado lado a lado com o mal e o sofrimento, encontra-se a graça santificante e o convite de Deus para a Sua vida bem-aventurada. Não se pode dizer que o pecado afetou de forma irremediável a natureza humana; a vocação à santidade permanece sendo uma realidade concreta, de modo que podemos reverter a nossa inclinação ao pecado e transformá-la em uma vida de comunhão com Deus.

A RESPOSTA CRISTOLÓGICA PARA O PROBLEMA DO MAL

Dizia na introdução que Cristo assumiu a realidade do mal e do sofrimento. Permitiu que Sua natureza humana experimentasse a tentação (S. Mateus 4,1-11) e a dor excruciante de Sua Paixão e Crucificação. Talvez o símbolo do cadáver de um criminoso, condenado por blasfêmia e sublevação, não soe como uma resposta adequada para o sofrimento. A Igreja primitiva era plenamente consciente disto, e São Paulo não hesita em descrever a mensagem da cruz como “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (ICoríntios 1,2).

Existe, porém, algo nobilíssimo neste aparente escândalo. O que faz do Deus de Jesus Cristo um Deus “diferente”? Talvez pelo fato de não ser um Ser desinteressado na humanidade, um mero projetista que lança a criação no absoluto caos de um futuro incerto. Esse Deus que Cristo nos apresenta – e quem é Cristo senão o próprio Deus assumindo um rosto e o corpo humanos na história? – é um Deus que, livremente, desarma-Se de toda a Sua soberania para revelar toda a miséria humana revertida para um bem maior e eterno.

Nosso Senhor não destruiu definitivamente as realidades do mal e do sofrimento. Diante das mazelas do mundo contemporâneo, talvez o sacrifício de Cristo pareça um eco histórico inútil, a história de um profeta fracassado no qual projetamos nossos sentimentos de autopiedade. No entanto, digo que que a imagem do Homem Deus crucificado permanece como um símbolo histórico permamente. Mais do que assumir os pecados da humanidade e ser esmagado para nos salvar, Cristo mostra como se faz, o que nos torna plenamente humanos, com amor, dedicação, paciência e sacrifício.

Cristo fez-Se a imagem perfeita do Pai, na caridade que tudo suporta, tudo crê (ICoríntios 1,7). A finitude da vida é compreendida na Pessoa de Jesus Cristo. Mas ela não é o finito rumo à completa escuridão; é a janela que se abre para a verdadeira luz.

O SENTIDO DO SOFRIMENTO À LUZ DA FÉ

Ensina o Catecismo da Igreja Católica:

“Mas por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum? Segundo seu poder infinito, Deus sempre poderia criar algo melhor. Todavia (…), Deus quis livremente criar um mundo em “estado de caminhada” para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição” (§ 310-311).

A mensagem básica deste trecho do Catecismo é: o plano de Deus para a humanidade não está consumado. Talvez, este não seja o melhor mundo possível, como reconhece implicitamente o texto… mas por que não seria a melhor forma para o melhor mundo possível? Ora, é credível que, se Deus deseja tanto conservar a liberdade humana quanto destruir definitivamente o mal, a atual condição do mundo deve ser considerada a melhor maneira de fazê-lo. E por quê?

Em um mundo dotado de agentes morais livres, cada indivíduo pode fazer uso de sua liberdade para determinar o seu destino eterno. Aos que amam a Deus, a vida eterna; aos que O odeiam e rejeitam, a separação eterna. Nisto, o mal é destruído através da separação destes dois grupos. De um lado, os santos que serão confirmados em seu estado de graça, e do outro os que serão confirmados em sua rejeição à graça divina, de modo que, uma vez isolados, não poderão aborrecer a realidade perfeita que virá. Não nos esqueçamos que a transição da morte para o destino eterno das almas consiste em uma escolha permanente: tanto aqueles que escolheram amar a Deus quanto os que decidiram rejeitá-lo de maneira pertinaz fizeram uma escolha que permanecerá imutável por toda a eternidade.

É preciso que o cristão esteja ciente disto. A humanidade ainda vive a era da redenção; não podemos cair no erro de deduzir que, pelo fato de Deus ainda não ter lidado definitivamente com o problema do mal, Ele não está lidando com isto de maneira alguma. É um dado da revelação divina que o mal deixará de existir:

“Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda a lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Apocalipse 21,3-4).

CONCLUSÃO

O mal permanece sendo uma chaga dolorosa na trajetória humana. É urgente uma resposta pastoral da Igreja, e a misericórdia de Deus deve ser aplicada nesta realidade conturbada. Como sugere o Papa Francisco na bula Misericordiae Vultus:

“Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos”.

A ação definitiva de Deus sobre o mal virá; entretanto, não devemos alimentar um excessivo pessimismo acerca da natureza humana, neglicenciando o dever cristão de ser luz do mundo e sal da terra (S. Mateus 5,13-16). Embora não compreendamos completamente a razão da ação do mal no mundo frente à bondade divina, não deveríamos nos surpreender se, entre todas as razões que levam Deus a permiti-lo, esteja o dever de fazer com que a misericórdia e o bem prevaleçam sobre o mal e a impiedade.

Em contraste com o mal, o bem será sempre uma luz de esperança, a certeza de que, em meio às trevas da noite, pequenos luzeiros iluminam o caminho dos homens rumo à eternidade.

A eclesiologia católica e o Protestantismo

Cidade do Vaticano

A Igreja é prenunciada, enquanto projeto de salvação e redenção do gênero humano, já no Antigo Testamento. A palavra do Novo Testamento para Igreja (grego “ekklesia” – “assembleia”, “reunião”, “convocação”) está enraizada em uma noção veterotestamentária de “assembleia”. De fato, cremos que esta palavra é empregada enquanto explanação da raça humana como família de Deus, além de uma porção do “povo escolhido”, tal como no antigo Israel (embora não mais em sentido exclusivista, mas como real comunhão de um povo que crê).

Na realidade neotestamentária, a Igreja ganha um significado mais profundo, de verdadeira relação e comunhão; não mais um organismo cujo objetivo último é separar uma pequena porção, mas sim congregar uma grande multidão, unida em torno dos sacramentos, das obras de caridade e do testemunho de fé. Um senso de universalidade e abertura é agregado à Igreja, dotada de uma missão que não é barrada por preceitos legalistas. A Igreja está realmente imersa na realidade humana, embora sem jamais apartar-se de Deus.

Com o advento do Protestantismo no Brasil nas últimas décadas, a eclesiologia cristã sofreu um duro golpe, sendo profundamente empobrecida; dizem muitos que “Não é preciso crer em igrejas, basta ter fé em Jesus como Senhor e Salvador pessoal”. Deixando de lado a real intenção de quem repete constantemente esta sentença – quer em decorrência de uma visão eclesiológica falha, quer pelo desejo de, veladamente, transmitir uma mensagem de cunho relativista –, ela não faz sentido (ou pelo menos não deveria fazer) para nós. A eclesiologia católica tradicional se distingue em muitos aspectos da visão protestante, coincidindo, porém, em alguns pontos (dos quais pretendo tratar em um futuro estudo).

Convém elucidar, num primeiro momento, que a Igreja não é um mero “templo” ou “edificação”: a Sagrada Escritura jamais empregou a palavra “igreja” em um sentido tão vago e limitado quanto este. Mesmo quando falamos de “igreja” em sentido particular – uma paróquia, uma diocese – reconhecemos que ali está verdadeiramente presente uma porção da única Igreja de Cristo, formando, com todas as comunidades católicas dispersas pelo mundo, através da celebração eucarística, o único rebanho do Senhor. Trata-se de uma divisão em sentido meramente territorial, embora jamais essencial. Os protestantes, erroneamente, deduzem que a Igreja enquanto estrutura visível é um aspecto ambíguo, disperso e alheio à realidade invisível da mesma, onde, em tese, se situa verdadeiramente a Igreja enquanto Corpo de Cristo. Para o Protestantismo, o mistério da Igreja não se dá através de uma relação verdadeira entre Céu e terra, mas de algo que, na terra, não expressa verdadeiramente o que se inicia no Céu: em outras palavras, crê que a Igreja não pode ser objetivamente reconhecida em sua estrutura visível.

Visando salvaguardar esta dimensão visível da Igreja, muitas foram as definições imortalizadas pelo Sagrado Magistério, retiradas – ou inspiradas – da Sagrada Escritura e da Tradição Apostólica.  Algumas delas são: “aprisco”, “vinha” (do Senhor), “Esposa do Cordeiro”… todas elas se completam e, juntas, expressam os diversos aspectos inerentes à Igreja. Tais definições e seus respectivos aspectos devem manifestar-se visivelmente, de modo que a religião autêntica seja reconhecida por todos.

Mas a definição por excelência – que, me parece, resume e esclarece todas as demais – é de “Corpo Místico de Cristo”. Tal definição expressa o mistério da Igreja enquanto realidade visível e humana, e, ao mesmo tempo, divina e sobrenatural. É verdadeiramente um corpo, porque tem Cristo como Cabeça (cf. Colossenses 1,18), estando unido a uma estrutura que se manifesta através das relações sacramentais e que se consuma numa comunidade de fé. Uma sociedade divina (em sua origem e essência) e humana (em suas relações concretas e estrutura visível).

Como se vê, a definição católica é completa porque não negligencia ou omite o papel vital exercido pelos membros do povo de Deus na difusão do Evangelho, que, unido, forma verdadeiramente a Igreja de Deus, em plena comunhão com os irmãos que nos precederam na caminhada de fé (as Igrejas padecente e triunfante). A eclesiologia católica valoriza a interdependência entre os membros do povo de Deus, a unidade sacramental e a profissão de uma única fé; desta forma, ela é apresentada como um todo coeso, substancialmente uno, e não vago, disperso e confuso (conforme a visão protestante).

Cremos em Cristo e, por isso, também na Igreja; e cremos na Igreja porque cremos em Cristo. Ambos – Cabeça e Corpo – formam a estrutura que denominamos Igreja, indispensável para a salvação das almas.

Maria Santíssima segundo os reformadores

Virgem Santíssima

O que disseram os reformadores sobre a virgindade de Maria Santíssima?

Quando aponto as fragilidades do Protestantismo, não o faço partindo meras deduções ou com o simples intento de nutrir conflitos com os nossos irmãos separados. Afinal, é inegável a “descontinuidade teológica” entre os protestantes hodiernos e os “pais da Reforma”; diversos aspectos da teologia reformada se perderam no decorrer da história, sendo alterados ou completamente abandonados pelos protestantes atuais.

Tome-se como exemplo a questão da virgindade perpétua de Nossa Senhora, que é atacada constantemente pelos nossos irmãos separados. Não pretendo, no presente texto, ater-me às dificuldades relacionadas a esta verdade de fé; entretanto, vale a pena ler o que disseram os primeiros reformadores sobre um ponto tão combatido pelos seus seguidores atuais. Começo pela quase agostiniana exegese de João Calvino sobre o problema dos “irmãos” de Jesus:

“A partir de Mt 1,25, Elvídio [1] criou muita confusão na Igreja, porque dele deduz que Maria tinha permanecido virgem unicamente até o primeiro nascimento e depois teve outros filhos com seu marido. A perpétua virgindade de Maria foi defendida vigorosa e perfeitamente por Jerônimo. É suficiente dizer que é insensato e falso deduzir dessas palavras o que sucedeu depois do nascimento de Cristo. É chamado primogênito não por outra razão, mas sim para que saibamos que ele nasceu da Virgem. Nesse texto se nega que José tivesse tido concurso marital com Maria antes de nascer o menino; tudo está limitado àquele tempo. Mas nada se diz do que aconteceu depois” (Jean Calvino Opera, 45,70; 46,271-272).

Outra importante análise é feita pelo reformador de Zurique, Zwinglio:

“Deve-se considerar aqui a honra que o evangelista Lucas e também Mateus lhe tributam por sua elevada pureza; ela é jovem pura e intacta antes do parto, no parto e depois do parto, isto é, sempre. Entre os homens é impossível que uma mãe seja ao mesmo tempo virgem; para Deus tudo é possível, porque todas as criaturas obedecem à sua voz” (H. Zwingli, Eine Predigt von der reinen Gottesgebärerin Maria: ZSW 1,392-393).

Digna de destaque é a análise de Lutero, expressa de maneira mais breve, porém não menos elegante que os dois primeiros:

“Maria permaneceu virgem; pois depois de se sentir mãe do Filho de Deus, não desejou ser mãe de outro homem, mas permanecer nesta graça” (Martinho Lutero, Tschrede n. 4435. Ergänzungen, 1539: LW 48,579).

Diante de tantos ataques à pureza da Mãe do Salvador, o que diriam os reformadores hoje? Estas reflexões convidam nossos irmãos separados a uma nova postura diante daquela que, abrindo-se completamente à graça divina, fez-se Mãe do Verbo encarnado.

Nota:

[1] Para saber mais sobre Elvídio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Helv%C3%ADdio

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Bibliografia consultada: José Cristo Rey García Paredes. Mariologia – Síntese bíblica, histórica e sistemática. Ed. Ave-Maria (pgs. 234-235).

A Essência do Protestantismo

Lutero, João Eck e Carlos V

Quando se analisa a essência do Protestantismo, deve-se considerar sobretudo o seu “núcleo adaptativo”: o Protestantismo, trazendo em si, geneticamente, a “semente da divisão” [1], não consiste numa pretensa “reforma” do Catolicismo, mas sim em uma contradição interna que o insere em uma contínua reforma de si mesmo; não é possível esperar que seu desenvolvimento seja substancialmente uno – o que só é possível quando Deus é o autor primário da religião – mas algo que, embora inserido em um único corpo doutrinário, parte de um princípio motor que o situa além deste, de tal modo que a religião adquire milhares de manifestações distintas (e divergentes) no contexto de sua própria realidade e desenvolvimento.

Como se vê, a mutação contínua do Protestantismo é contrária à máxima de Jesus Cristo: “Toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir” (S. Mateus 12,25).

Esta ruína descrita por Cristo não deve ser compreendida somente como um processo de decadência material, que conduz à definitiva extinção de um determinado organismo; pode, também, ser compreendida como uma “monstruosidade interior”, um processo ininterrupto de fragmentação e divisão, que conduz à confusão e a contradição de sua identidade, uma essência corrompida pelos princípios que o formam – a começar pela Sola Scriptura, que dependendo tão somente da análise subjetiva do crente acerca das Escrituras, pode gerar variadas interpretações para uma mesma verdade.

Sendo Deus o autor da unidade de Sua família espiritual – a Igreja –, deve-se concluir que o relativismo interno do Protestantismo nos conduz, naturalmente, à fidelidade à continuidade do Corpo de Cristo na terra: a Igreja Católica Apostólica Romana.

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[1] Frase emprestada do Prof. Felipe Aquino, retirada do livro “Por que sou católico?”, Ed. Cléofas, 27ª edição (pág. 88).

Reforma?

Martinho Lutero

Imagem: Historical Figures Foundation

Quando o Espírito Santo suscita homens e mulheres para a edificação e restauração da Igreja, nós os reconhecemos, basicamente, por três características: santidade de vida, docilidade de espírito e firme obediência. Tome-se como exemplo São Francisco de Assis… ao deparar-se com o pedido de nosso Senhor – que, do crucifixo da Igreja de São Damião disse: “Francisco vai e repara a minha igreja que, como vês está em ruínas” –, deu-se por inteiro, assumindo a radicalidade da pobreza evangélica, servindo a Igreja e dando origem a uma vasta família espiritual. Este grande santo transformou a vida da Igreja a partir, e não apartado dela.

Por outro lado, existem os orgulhosos, os falsos visionários, que instigados mais pela soberba do que pelo sincero desejo de agradar a Deus, colocam-se como rebeldes, causadores de divisão, escândalo e intrigas; são aqueles de quem fala São Paulo: “Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao próprio ventre” (Romanos 16,17-18).

Além das características já mencionadas (santidade de vida, docilidade de espírito e firme obediência), os santos e autênticos restauradores da fé são conhecidos pelo amor a Deus, que é o fundamento, a origem de todas as suas obras… amor manifesto sobretudo em obras, mas também em palavras.

Tomemos um exemplo contrário ao ideal de autêntica restauração eclesial – que sempre impele para a unidade da Igreja – sob o influxo da graça divina: Martinho Lutero, o “grande reformador” alemão. O que disse e fez este homem tido por muitos como “profeta” e “homem de Deus”? Vejamos algumas de suas citações…

Sobre o diálogo entre Cristo e a samaritana, sobre a absolvição da mulher adúltera e sua relação com Maria Madalena, disse:

“Cristo Adúltero. Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte [do poço de Jacó] de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: “Que fez, então, com ela? “Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer” (Lutero, Tischredden, Conversas à Mesa, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107, apud Franz Funck Brentano, Martim Lutero, Ed Vecchi Rio de Janeiro 1956, p. 15).

Tratando da questão do pecado, disse:

“Se és um pregador da graça, então pregue uma graça verdadeira, e não uma falsa; se a graça existe, então deves cometer um pecado real, não fictício. Deus não salva falsos pecadores. Seja um pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente ainda…Se estamos aqui (neste mundo) devemos pecar… Pecado algum nos separará do Cordeiro, mesmo praticando fornicação e assassinatos milhares de vezes ao dia” (American Edition, Luther’s Works, vol. 48, pp. 281-82, editado por H. Lehmann, Fortress, 1963. ‘The Wittenberg Project;’ ‘The Wartburg Segment’, translated by Erika Flores, de Dr. Martin Luther’s Saemmtliche Schriften, Carta a Melanchthon, 1 de agosto de 1521).

Ainda sobre o pecado, o enaltecia em detrimento das boas obras (uma autêntica manifestação da Sola Fide?):

“Estas almas piedosas que fazem o bem para chegar ao céu não somente não o alcançarão, como serão arranjados entre os ímpios; e importa mais em impedi-los de fazerem boas obras que pecados” (Wittenberg, VI, 160, citado por O’Hare, in “The Facts About Luther”, TAN Books, 1987, p. 122).

No intuito de sufocar as revoltas dos camponeses, disse:

“Assim como as mulas não se movem até que seu dono lhe puxe as cordas, assim o poder civil deve conduzir as pessoas comuns, açoitá-los, enforcá-los, queimá-los, torturá-los e decapitá-los, para que aprendam a temer o poder estabelecido” (El. ed. 15, 276, citado by O’Hare, em ‘The Facts About Luther, TAN Books,1987, p. 235).

“O camponês é um porco, e quando um porco é abatido, ele está morto, e da mesma forma os camponeses não pensam sobre a vida futura, pois do contrário se comportariam de outra maneira” (‘Schlaginhaufen,’ ‘Aufzeichnungen’ p. 118, citado ibid., p. 241).

Referindo-se à adulteração bíblica em Romanos 1,17 (onde acrescentou a palavra “somente” na frase “O justo viverá pela fé”), disse:

“Se um papista lhe questionar sobre a palavra ‘somente’, diga-lhe isto: papistas e excrementos são a mesma coisa. Quem não aceitar a minha tradução, que se vá. O demônio agradecerá por esta censura sem minha permissão” (Amic. Discussion, 1, 127,’The Facts About Luther,’ O’Hare, TAN Books, 1987, p. 201).

Eis as diferenças: os santos unificam, os hereges separam. Os santos reconstroem, os hereges destroem. Os santos amam, os hereges odeiam. Enfim, os santos crescem em virtudes, os hereges caem de pecado em pecado. Os homens são conhecidos por suas obras; e a divisão da Cristandade foi a “obra”, o “legado” dos reformadores.

Disse nosso Senhor que a boca fala do que o coração está cheio (São Mateus 12,34). De que estava cheio o coração de Lutero quando proferiu tais palavras?

Quem puder entender, entenda…

Os erros da Sola Scriptura

João Calvino em Genebra

A Reforma Protestante parece ter ido muito além daquilo que seus líderes imaginavam. Hoje, há uma multiplicidade incrível de seitas e doutrinas divergentes, cada qual apresentando sua concepção particular da fé cristã. Ora, todas as denominações oriundas da Reforma dizem pautar seus ensinamentos somente na Sagrada Escritura – o princípio protestante conhecido como Sola Scriptura –, que consideram a única e fundamental regra de fé e prática dos cristãos*.

Dizem os protestantes que só se pode chegar ao conhecimento da verdade através do livre exame das Escrituras; e uma vez que esta “verdade” é conhecida, deve ser aceita e praticada concomitantemente com outros que partilham de ideias semelhantes. Define-se tal prática de maneira genérica: “congregar em uma igreja” – de preferência aquela que, supostamente, está mais próxima da “verdade bíblica”, ou, pelo menos, aquela onde o crente ‘se sente bem’ –, sem que sejam exigidas algumas credenciais necessárias, como “Qual é a origem desta igreja?”, ou “Com que autoridade este pastor ensina tais coisas?”, etc. Enfim, os critérios não são seguros o bastante: basta que o crente “aceite Jesus”, ainda que sua concepção acerca da Pessoa de Cristo difira em muitos pontos daquela defendida por outros que passaram pelo mesmo processo, mas que chegaram a conclusões diferentes, e, inevitavelmente, contraditórias entre si.

Ora, nós não cremos desta maneira. Para os católicos, a fé, a religião verdadeira, não permite divisões e “interpretações particulares”. Tampouco cremos que o conhecimento da verdade se dá através de uma leitura individualista das Escrituras. Do contrário, o que dizer de Abraão? De Paulo? Todos eles se converteram não através da leitura de livros sagrados, mas sim de encontros concretos com Deus.

Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo nos deixou um porto seguro, a Igreja; cremos que a verdade é sustentada nela e por ela, de tal forma que é digna de ser chamada de “sustentáculo da verdade” por São Paulo (1Tm 3,15). A Igreja é a garantia de que nenhum outro evangelho será pregado, ainda que um anjo baixado do Céu ouse fazê-lo (Gl 1,8). E é com Pedro e sob Pedro – e seus sucessores – que se dá esta comunhão plena, uma vez que ele foi estabelecido como rocha, isto é, fundamento visível da unidade da Igreja de Cristo, (Mt 16,18), pastor do povo de Deus (Jo 21,15-17) e guardião da fé (Lc 22,32).

O Papa é o ponto de referência da unidade eclesial. Onde está Pedro, aí está a Igreja, dizia Santo Ambrósio. Esta realidade orgânica, substancial, indelével e imutável é fundamental para a reta compreensão do depósito da fé. O Papa, ouso dizê-lo, é o coração da Igreja. Nele, pulsam as verdades de fé, que irradiam para o mundo sob a luz do Espírito Santo. Se a Igreja é o Corpo de Cristo, Cristo é a Cabeça da Igreja e o Papa é a boca de Cristo; não há como separá-los. Não se pode falar da Igreja sem o Papa, do Papa sem a Igreja, nem de Cristo sem ambos.

A divisão da humanidade na Torre de Babel se deu por um ato de desobediência, pois esta desejava alcançar o Céu e tornar célebre o seu nome (Gn 11,4). Portanto, cometeram o pecado da soberba, sendo castigados por Deus. Curiosamente, os reformadores também se tornaram soberbos e receberam o devido salário pelo seu orgulho; hoje, os protestantes são divididos em milhares de seitas. Este é o fim certo de uma obra meramente humana: tais “pastores” não receberam qualquer mandato divino, e toda a estrutura de sua fé depende de uma interpretação das Escrituras baseada somente na razão natural, ao passo que homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus (IIPd 1,21).

Devemos avaliar a árvore pelos seus frutos (Mt 7,16). E quais são os frutos da Sola Scriptura? Constante divisões, rixas e, consequentemente, o caos e o relativismo religioso. Evidentemente, o cenário atual da Cristandade não era desejado por nosso Senhor, que rezou pela unidade da Igreja: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste(Jo 17,21).

Como atesta a Escritura, a divisão dos cristãos é um descrédito para o Cristianismo. Se devemos ser perfeitos na unidade para que o mundo reconheça que Cristo foi enviado pelo Pai para a nossa salvação (Jo 17,23), o que pensam os não cristãos sobre um povo que, embora manifeste a fé no mesmo Messias, é incapaz de dar um testemunho digno, conforme os princípios bíblicos?

“Sejam perfeitos na unidade”, disse o Senhor; e não ordenou que houvesse uma unidade em âmbito local apenas, mas universal. A unidade das igrejas particulares deve se estender a nível mundial. Na verdade, esta unidade local é um mero reflexo da unidade substancial da Igreja em sua estrutura visível. A Igreja deve ter um coração e uma só alma (At 4,32), pois crê em um só Senhor, uma só fé e um só batismo (Ef 4,5).

O Protestantismo se assemelha a um espelho quebrado: as seitas equivalem aos cacos espalhados pelo chão, todos com “formatos” (doutrinas) específicos, que se originam da interpretação arbitrária e subjetiva de cada crente. Não é possível encontrar uma unidade teológica, um mesmo e único rosto de Cristo, pois as concepções doutrinárias de cada seita seguem a linha de pensamento de seus respectivos fundadores. Nestas comunidades separadas, Cristo é o que cada heresiarca “pensou” Dele, e não simplesmente o que Ele “é”.

Assim, os pontos em comum a partir dos quais os protestantes reclamam uma suposta “unidade espiritual”, em uma “igreja invisível”, são supérfluos: a consequência de se interpretar a religião de um modo diverso conduz às mais variadas formas de se viver a fé. E isto, de modo algum, consiste em uma verdadeira unidade, pelo menos não aquela desejada por nosso Senhor: “… que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste(Jo 17,23).

Neste caso, a defesa da Sola Scriptura se torna duvidosa, uma vez que não há uma pura dependência da Bíblia Sagrada como regra de fé e prática: tal doutrina serve apenas para fundamentar a interpretação que um determinado indivíduo faz das Escrituras. Assim, deve-se adequar a Palavra de Deus a um conjunto de ideias preconcebidas, e não sujeitar a própria inteligência à revelação divina.

Porém, em meio às trevas do relativismo, brilha uma luz: a luz da Igreja Católica Apostólica Romana, Mãe e Mestra espiritual de todos aqueles que depositam sua esperança em Jesus Cristo, Redentor da humanidade através de Seu sacrifício expiatório na cruz.

Ao contrário dos protestantes, é fundamental para os católicos situar a Sagrada Escritura na realidade eclesial, em sua correlação com a Tradição e o Magistério perene da Igreja: para nós, não é possível falar de Bíblia sem a Igreja. Daí a origem do que professamos no Credo: Creio (…) na Santa Igreja Católica“.

A Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério são “extensões” da Palavra viva de Deus, que é Jesus Cristo (Jo 1,1). Estes elementos, que, em sua intrínseca união, dão forma ao corpo da sã doutrina, são expressões limitadas da única e absoluta Palavra de Deus; com efeito, Jesus Cristo é a Palavra permanente de Deus no coração da Igreja, elucidando as verdades da fé de modo gradual e contínuo, através da reflexão teológica e do parecer dos legítimos pastores do Povo de Deus. Afinal, foi isto que o próprio Senhor prometeu à Sua Igreja: a eterna assistência do Paráclito, o Espírito Santo (Jo 16,13).

Logo, a Palavra não consiste somente naquilo que foi transmitido por escrito; de fato, por palavra não se compreende somente a expressão de algo por escrito, mas também uma expressão verbal. Cremos que a Bíblia é um (e não o) dos meios que Deus utiliza para comunicar a Verdade à Igreja; entretanto, esta Palavra é, acima de tudo, uma Pessoa, que se relaciona com os a Igreja ao longo da história. Portanto, a Palavra de Deus está na Bíblia, assim como está na Tradição e fala através do Magistério da Igreja, responsável por transmitir a Verdade de modo infalível.

Toda a problemática da Sola Scriptura se resume ao princípio da autoridade. Os protestantes não admitem um ponto fixo de referência – no caso, o Sagrado Magistério, composto pelo papa e os bispos em comunhão com ele –, o que torna o Protestantismo uma religião flexível o bastante para dar origem a mutações teológicas constantes: enquanto a evolução dos dogmas católicos se dá no contexto da realidade eclesial, onde as hipóteses teológicas são sempre incorporadas ou condenadas pela Igreja, o Protestantismo é fragmentado, dando origem a orientações teológicas diversas, e que entram em choque entre si, como já elucidado anteriormente.

É a consequência natural do relativismo… ideias divergentes não podem coexistir de maneira harmônica: ou a Verdade é ou não é. Há somente o falso e o verdadeiro, o sim e o não, como ensinou o Senhor (Mt 5,37). Se existe uma multiplicidade de explicações contraditórias para uma mesma questão, é preciso buscar a Verdade abdicando das hipóteses falsas, a fim de que ela se torna nítida o bastante; e uma vez reconhecida, ela deve ser abraçada e colocada em prática.

Os protestantes costumam citar inúmeros versículos, que, supostamente, dão suporte à Sola Scriptura. Será que a Sagrada Escritura realmente expõe de maneira explícita esta doutrina? Vejamos alguns dos principais argumentos dos protestantes:

1. Paulo ensina que toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino. Logo, tudo aquilo que está fora da Bíblia deve ser rejeitado.

Esta é uma das objeções mais comuns. Segundo os protestantes, em 2Tm 3,16-17, o Apóstolo dos Gentios dá ênfase à Palavra de Deus transmitida por escrito em detrimento da Palavra transmitida oralmente através da Tradição. Vejamos o que diz o texto na íntegra:

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra“.

Como se vê, em momento algum é possível concluir que São Paulo se refere “somente” às Escrituras; é nítida a ênfase na inspiração divina da Palavra de Deus, mas não há uma alusão a ela como suprema e única regra de fé e prática. Ora, como é possível chegar a tal conclusão se Paulo sequer tinha em mente o cânon bíblico juntamente com os livros do Novo Testamento?

Afinal, à época em que São Paulo escreve sua segunda epístola a Timóteo, a Igreja não contava com a relação definitiva de livros que formam a Bíblia, o que só aconteceria em meados do IV século da era cristã! Se aplicarmos esta sentença paulina no sentido desejado pelos protestantes, deveríamos considerar tão somente a revelação veterotestamentária, que era ao que o apóstolo estava se referindo nesta ocasião.

Podemos colher deste versículo somente duas informações relevantes:

a) que toda a Escritura – embora não ela somente – é inspirada por Deus;

b) e, consequentemente, útil para a refutação, correção e formação espiritual.

Logo, 2Tm 3,16-17 não corrobora com a Sola Scriptura. Apenas enfatiza o caráter inspirado das Escrituras sagradas.

2. Não seguimos religiões organizadas por homens. A nossa religião é Jesus Cristo e Sua Palavra, a Bíblia.

Não é incomum se deparar com estas afirmações. Mas elas, em si mesmas, são absurdas.

Afinal, o que é religião? Ou melhor, de quem ela procede? É evidente que Cristo não uma “religião”, e sim uma Pessoa. Do mesmo modo, a Bíblia é parte da religião, mas ela mesma, individualmente, não é “a” religião. Pode-se dizer apenas que os ensinamentos de Cristo convergem para a prática de uma fé específica.

A religião é um composto complexo de elementos: espaços destinados ao culto, uma organização hierárquica (isto é, uma liderança religiosa), uma doutrina, ritos e fontes das quais esta mesma doutrina se nutre e é elaborada. Se um protestante diz que não segue uma religião “organizada por homens”, simplesmente está negando todos os elementos necessários a qualquer religião, sobretudo tratando-se do Cristianismo, além de atentar contra a lógica.

Logo, o que se pode dizer é que Jesus Cristo é o autor da religião, enquanto a Bíblia é um dos elementos que formam o corpo da religião cristã. Já no Antigo Testamento está escrito que o Messias ensinaria à humanidade a “verdadeira religião” (Is 42,1).

Também é verdade que todas as denominações protestantes possuem fundadores humanos, e boa parte de suas doutrinas se originaram das interpretações que eles mesmos fizeram da Sagrada Escritura. Logo, negar isto é também uma grande contradição.

3. A Igreja Católica, ao longo da história, criou tradições estranhas à Palavra de Deus e as incorporou em sua doutrina.

Naturalmente, a Igreja seguiu seu curso e antecedeu a formação de um cânon bíblico. Os protestantes, erroneamente, concluem que a Igreja se resume ao que é narrado nas Escrituras, que o Espírito Santo teria se calado após a conclusão do último versículo de Atos! (considerando que mesmo a divisão da Bíblia em capítulos e versículos trata-se de um adendo tardio, a fim de facilitar seu estudo)

Como foi dito anteriormente, nosso Senhor prometeu à Igreja a eterna assistência do Espírito Santo (Jo 16,13). Não há um período limitado de reflexão e elucidação: a missão da Igreja é permanente; logo esta reflexão teológica é permanente. Daí nascem as exposições dogmáticas definitivas da Igreja, fundamentadas na reflexão da Palavra de Deus (oral e escrita), sob a moção do Espírito Santo.

A Igreja não proclama dogmas senão com a intenção de explicar melhor e de maneira mais profunda a mesma e definitiva revelação divina: não são acréscimos posteriores, mas sim uma exposição madura e mais abrangente de um dogma já estabelecido. Daí o intervalo que separa a definição solene de um dogma daquele que o precede e dos que o sucedem, pois todos nascem de uma reflexão cautelosa e orante das verdades cristãs. Embora certa de que conta com o auxílio direto de seu Divino Fundador, a Igreja é cuidadosa e humilde quando se exige uma posição definitiva de sua parte.

A própria Escritura narra que os apóstolos, a fim de discutir determinados temas controversos acerca da doutrina cristã, se reuniram em um concílio, em Jerusalém (At 15,4-21). Ora, não deveriam simplesmente colocar em prática os ensinamentos de Cristo? Sim e não. Sim porque estes mesmos ensinamentos são objetivos em sua dimensão prática. E não porque exigem uma reflexão aprofundada à medida que falam da natureza e da Pessoa de Cristo, conduzindo, inevitavelmente, a sentenças definitivas acerca de Sua identidade. Desta forma, os apóstolos nos ensinam que a prática deve estar sempre sujeita ao dogma; do contrário, não se trata de fé verdadeira, mas de ações meramente filantrópicas, sendo a dimensão religiosa uma realidade meramente subjetiva.

4. Não existe qualquer referência à tradição na Bíblia. Pelo contrário, Cristo a condenou dizendo: “… violais os preceitos de Deus por causa de vossa tradição” (Mt 15,3).

Os protestantes, erroneamente, confundem a Tradição por excelência – aquilo que os apóstolos transmitiram oralmente como parte da revelação – com as tradições humanas oriundas dos ardis farisaicos, que visavam, mediante uma suposta “consagração” de um ou mais objetos a Deus, não socorrer os pais em suas necessidades; Jesus também condenou os aspectos puramente exteriores da religião, explicando que o ato de lavar as mãos não os tornava puros em espírito (Mt 15,15-20).

Evidentemente, estamos diante de duas concepções distintas do que é “tradição”. Ora, compreende-se por Tradição, em seu sentido pleno e legítimo, aquilo que foi transmitido oralmente “pelos apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e instituições, transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo” (Cat. § 76).

Com efeito, o Novo Testamento enfatiza que a religião foi transmitida oralmente e por escrito. Duas fontes distintas, mas intrinsecamente unidas. Em sentido metafórico, podemos dizer que, se a Igreja é o Corpo de Cristo, do mesmo modo a Bíblia e a Tradição são os “braços” deste corpo: ambos procedem do mesmo Corpo, estão à serviço Dele, mas cada qual em seu próprio lugar, sem que haja contradição alguma entre ambos.

Esta sentença está claramente exposta na Sagrada Escritura, sendo exposta de maneira mais clara por São Paulo:

“… guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito(2Ts 2,15)**

Logo, é evidente que há uma Tradição legítima, que deve ser distinguida das tradições condenadas por nosso Senhor. Do contrário, seríamos obrigados a perceber uma aparente contradição, conclusão que, de imediato, deve ser descartada.

* * *

Conclusão

O presente texto, bastante modesto em sua abrangência, limitou-se a expor somente alguns aspectos da Sola Scriptura e suas evidentes contradições. Teria muito mais a dizer; porém, limitei-me às questões fundamentais e, de maneira didática, busquei esclarecer os pontos que considero mais importantes.

Julguei importante fazê-lo para que nos lembremos: embora a Sagrada Escritura nos ensine a doutrina de Cristo, em momento algum diz que ela é um “manual” que contém tudo aquilo que se deve crer e fazer. Se isto fosse verdade, não haveriam milhares de seitas cristãs reclamando para si uma pretensa “verdadeira interpretação” da Bíblia, que só é possível na Igreja de Cristo. Com efeito, Cristo se manifesta, vive e opera de diversas formas no seio de Sua Igreja; não é o Cristianismo a “religião do livro”, mas da Palavra viva de Deus, uma Pessoa concreta, com a qual nos encontramos através de diversos elementos interdependentes.

Em nome de uma pretensa liberdade, o Protestantismo tornou-se prisioneiro de sua própria natureza relativista, nos restando somente duas alternativas: ou condenamos a Palavra de Deus em prol de uma heresia, ou condenamos uma heresia por amor à Palavra de Deus.

Se Lutero desejava uma reforma e um suposto “retorno às Escrituras”, não alcançou tais metas, pois muitas das doutrinas que defendia são hoje rejeitadas por milhares de grupos protestantes. Portanto, a Reforma tornou-se um processo ininterrupto e extremamente variável, o que anula a sua credibilidade.

Rezemos, pois, pela Igreja, para que não cesse de transmitir a fé confiada de uma vez por todas aos santos (Jd 1,3). Rezemos pelo Papa, fundamento visível da unidade eclesial. Rezemos pelos nossos irmãos separados, na esperança de, um dia, comunguemos do mesmo Corpo e Sangue do Senhor.

E, acima de tudo, lembremo-nos de que há um só Senhor, uma só fé e um só batismo (Ef 4,5).

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Notas:

* Isto enquanto fonte da revelação divina, e não no que concerne à organização interna, aos usos e costumes.

** Texto conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulus, 6ª impressão, 2010), que transmite melhor o sentido da doutrina católica.

10 razões para amar a Mãe de Jesus

Maria e Jesus

Os temas relacionados à religião católica são vastíssimos… como primeiro post deste blog, compartilho um pequeno texto de cunho apologético referente a um de meus temas favoritos: Maria Santíssima. Pretendo dedicar a ela uma considerável série de estudos, a fim de divulgar a visão católica acerca de sua vida, identidade, missão e lugar na Igreja.

São muitas as razões que me levam a reconhecer a importância da devoção a Nossa Senhora e sua íntima ligação com Cristo, ligação esta que se estende à comunidade cristã como um todo.

Tomei a liberdade de listar as dez principais razões que, creio eu, fundamentam a minha devoção e amor à Mãe de Deus:

1. Amo a Mãe de Jesus porque mulher alguma, em toda a história, foi honrada com tão íntima união com o Criador. Maria foi a única que encontrou graça diante de Deus (São Lucas 1,30), sendo digna do maior milagre na ordem da graça: gerar em seu ventre um Deus feito Homem.

2. Amo a Mãe de Jesus porque Deus a amou primeiro; cobriu-a com Sua sombra (São Lucas 1,35), preservando-a de toda a queda.

3. Amo a Mãe de Jesus porque foi digna de graças absolutamente singulares; jamais se viu ou se verá, em toda a história da da humanidade, alguém que, apesar de todos os privilégios dos quais gozou, permaneceu humilde e recatada, dignando-se ser reconhecida pelo próprio Filho como “mulher” (São João 2,4).

4. Amo a Mãe de Jesus porque foi através dela que o Senhor quis realizar seus primeiros milagres; o primeiro quando, pela voz de Maria, santificou São João Batista no ventre de Isabel (São Lucas 1,41). O segundo quando, através de sua intercessão, transformou a água em vinho, nas Bodas de Caná (São João 2,1-11).

5. Amo a Mãe de Jesus porque não faz sentido desprezar aquela que, através de seu “sim”, trouxe ao mundo nosso Senhor e Salvador. Recebemos das mãos da Virgem Maria bens preciosíssimos, dos quais não éramos dignos: um Salvador e a salvação. Devemos, portanto, retribuir tão nobre gesto com nossa gratidão e amor. Pois se Maria nos concedeu graças que não merecíamos, devemos retribuí-la como ela merece.

6. Amo a Mãe de Jesus porque, na crucificação, permaneceu firme, aos pés de seu Filho. Ela é, portanto, o mais nobre exemplo de força, perseverança e fé diante das tribulações.

7. Amo a Mãe de Jesus porque, através dos exemplos do Arcanjo Gabriel e de Santa Isabel, a Escritura nos exorta a saudá-la (São Lucas 1,28) e a nos felicitarmos com sua nobre presença (São Lucas 1,43).

8. Amo a Mãe de Jesus porque o Senhor fez nela maravilhas (São Lucas 1,49), e, apesar de todos os seus privilégios, declara-se serva (São Lucas 1,38; 1,48), sendo o exemplo magno da humildade cristã.

9. Amo a Mãe de Jesus porque o Espírito Santo, através de seus lábios, profetizou que ela seria proclamada bem-aventurada por todas as gerações (São Lucas 1,48), de tal maneira que, quem se nega a obedecer tais palavras, coloca-se contra a própria Sagrada Escritura.

10. E, finalmente, amo a Mãe de Jesus porque, na cruz, antes de entregar o seu espírito ao Pai, o Senhor no-la deu como Mãe na pessoa do discípulo amado (São João 19,27). Portanto, pode-se dizer que Maria é a nossa Mãe tanto quanto Deus é nosso Pai, com a mesma autoridade e propriedade.

Tomemos tão nobre Senhora como exemplo por excelência de fé, esperança e caridade. Assim seja.