A eclesiologia católica e o Protestantismo

Cidade do Vaticano

A Igreja é prenunciada, enquanto projeto de salvação e redenção do gênero humano, já no Antigo Testamento. A palavra do Novo Testamento para Igreja (grego “ekklesia” – “assembleia”, “reunião”, “convocação”) está enraizada em uma noção veterotestamentária de “assembleia”. De fato, cremos que esta palavra é empregada enquanto explanação da raça humana como família de Deus, além de uma porção do “povo escolhido”, tal como no antigo Israel (embora não mais em sentido exclusivista, mas como real comunhão de um povo que crê).

Na realidade neotestamentária, a Igreja ganha um significado mais profundo, de verdadeira relação e comunhão; não mais um organismo cujo objetivo último é separar uma pequena porção, mas sim congregar uma grande multidão, unida em torno dos sacramentos, das obras de caridade e do testemunho de fé. Um senso de universalidade e abertura é agregado à Igreja, dotada de uma missão que não é barrada por preceitos legalistas. A Igreja está realmente imersa na realidade humana, embora sem jamais apartar-se de Deus.

Com o advento do Protestantismo no Brasil nas últimas décadas, a eclesiologia cristã sofreu um duro golpe, sendo profundamente empobrecida; dizem muitos que “Não é preciso crer em igrejas, basta ter fé em Jesus como Senhor e Salvador pessoal”. Deixando de lado a real intenção de quem repete constantemente esta sentença – quer em decorrência de uma visão eclesiológica falha, quer pelo desejo de, veladamente, transmitir uma mensagem de cunho relativista –, ela não faz sentido (ou pelo menos não deveria fazer) para nós. A eclesiologia católica tradicional se distingue em muitos aspectos da visão protestante, coincidindo, porém, em alguns pontos (dos quais pretendo tratar em um futuro estudo).

Convém elucidar, num primeiro momento, que a Igreja não é um mero “templo” ou “edificação”: a Sagrada Escritura jamais empregou a palavra “igreja” em um sentido tão vago e limitado quanto este. Mesmo quando falamos de “igreja” em sentido particular – uma paróquia, uma diocese – reconhecemos que ali está verdadeiramente presente uma porção da única Igreja de Cristo, formando, com todas as comunidades católicas dispersas pelo mundo, através da celebração eucarística, o único rebanho do Senhor. Trata-se de uma divisão em sentido meramente territorial, embora jamais essencial. Os protestantes, erroneamente, deduzem que a Igreja enquanto estrutura visível é um aspecto ambíguo, disperso e alheio à realidade invisível da mesma, onde, em tese, se situa verdadeiramente a Igreja enquanto Corpo de Cristo. Para o Protestantismo, o mistério da Igreja não se dá através de uma relação verdadeira entre Céu e terra, mas de algo que, na terra, não expressa verdadeiramente o que se inicia no Céu: em outras palavras, crê que a Igreja não pode ser objetivamente reconhecida em sua estrutura visível.

Visando salvaguardar esta dimensão visível da Igreja, muitas foram as definições imortalizadas pelo Sagrado Magistério, retiradas – ou inspiradas – da Sagrada Escritura e da Tradição Apostólica.  Algumas delas são: “aprisco”, “vinha” (do Senhor), “Esposa do Cordeiro”… todas elas se completam e, juntas, expressam os diversos aspectos inerentes à Igreja. Tais definições e seus respectivos aspectos devem manifestar-se visivelmente, de modo que a religião autêntica seja reconhecida por todos.

Mas a definição por excelência – que, me parece, resume e esclarece todas as demais – é de “Corpo Místico de Cristo”. Tal definição expressa o mistério da Igreja enquanto realidade visível e humana, e, ao mesmo tempo, divina e sobrenatural. É verdadeiramente um corpo, porque tem Cristo como Cabeça (cf. Colossenses 1,18), estando unido a uma estrutura que se manifesta através das relações sacramentais e que se consuma numa comunidade de fé. Uma sociedade divina (em sua origem e essência) e humana (em suas relações concretas e estrutura visível).

Como se vê, a definição católica é completa porque não negligencia ou omite o papel vital exercido pelos membros do povo de Deus na difusão do Evangelho, que, unido, forma verdadeiramente a Igreja de Deus, em plena comunhão com os irmãos que nos precederam na caminhada de fé (as Igrejas padecente e triunfante). A eclesiologia católica valoriza a interdependência entre os membros do povo de Deus, a unidade sacramental e a profissão de uma única fé; desta forma, ela é apresentada como um todo coeso, substancialmente uno, e não vago, disperso e confuso (conforme a visão protestante).

Cremos em Cristo e, por isso, também na Igreja; e cremos na Igreja porque cremos em Cristo. Ambos – Cabeça e Corpo – formam a estrutura que denominamos Igreja, indispensável para a salvação das almas.

A Essência do Protestantismo

Lutero, João Eck e Carlos V

Quando se analisa a essência do Protestantismo, deve-se considerar sobretudo o seu “núcleo adaptativo”: o Protestantismo, trazendo em si, geneticamente, a “semente da divisão” [1], não consiste numa pretensa “reforma” do Catolicismo, mas sim em uma contradição interna que o insere em uma contínua reforma de si mesmo; não é possível esperar que seu desenvolvimento seja substancialmente uno – o que só é possível quando Deus é o autor primário da religião – mas algo que, embora inserido em um único corpo doutrinário, parte de um princípio motor que o situa além deste, de tal modo que a religião adquire milhares de manifestações distintas (e divergentes) no contexto de sua própria realidade e desenvolvimento.

Como se vê, a mutação contínua do Protestantismo é contrária à máxima de Jesus Cristo: “Toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir” (S. Mateus 12,25).

Esta ruína descrita por Cristo não deve ser compreendida somente como um processo de decadência material, que conduz à definitiva extinção de um determinado organismo; pode, também, ser compreendida como uma “monstruosidade interior”, um processo ininterrupto de fragmentação e divisão, que conduz à confusão e a contradição de sua identidade, uma essência corrompida pelos princípios que o formam – a começar pela Sola Scriptura, que dependendo tão somente da análise subjetiva do crente acerca das Escrituras, pode gerar variadas interpretações para uma mesma verdade.

Sendo Deus o autor da unidade de Sua família espiritual – a Igreja –, deve-se concluir que o relativismo interno do Protestantismo nos conduz, naturalmente, à fidelidade à continuidade do Corpo de Cristo na terra: a Igreja Católica Apostólica Romana.

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[1] Frase emprestada do Prof. Felipe Aquino, retirada do livro “Por que sou católico?”, Ed. Cléofas, 27ª edição (pág. 88).

Reforma?

Martinho Lutero

Imagem: Historical Figures Foundation

Quando o Espírito Santo suscita homens e mulheres para a edificação e restauração da Igreja, nós os reconhecemos, basicamente, por três características: santidade de vida, docilidade de espírito e firme obediência. Tome-se como exemplo São Francisco de Assis… ao deparar-se com o pedido de nosso Senhor – que, do crucifixo da Igreja de São Damião disse: “Francisco vai e repara a minha igreja que, como vês está em ruínas” –, deu-se por inteiro, assumindo a radicalidade da pobreza evangélica, servindo a Igreja e dando origem a uma vasta família espiritual. Este grande santo transformou a vida da Igreja a partir, e não apartado dela.

Por outro lado, existem os orgulhosos, os falsos visionários, que instigados mais pela soberba do que pelo sincero desejo de agradar a Deus, colocam-se como rebeldes, causadores de divisão, escândalo e intrigas; são aqueles de quem fala São Paulo: “Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao próprio ventre” (Romanos 16,17-18).

Além das características já mencionadas (santidade de vida, docilidade de espírito e firme obediência), os santos e autênticos restauradores da fé são conhecidos pelo amor a Deus, que é o fundamento, a origem de todas as suas obras… amor manifesto sobretudo em obras, mas também em palavras.

Tomemos um exemplo contrário ao ideal de autêntica restauração eclesial – que sempre impele para a unidade da Igreja – sob o influxo da graça divina: Martinho Lutero, o “grande reformador” alemão. O que disse e fez este homem tido por muitos como “profeta” e “homem de Deus”? Vejamos algumas de suas citações…

Sobre o diálogo entre Cristo e a samaritana, sobre a absolvição da mulher adúltera e sua relação com Maria Madalena, disse:

“Cristo Adúltero. Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte [do poço de Jacó] de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: “Que fez, então, com ela? “Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer” (Lutero, Tischredden, Conversas à Mesa, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107, apud Franz Funck Brentano, Martim Lutero, Ed Vecchi Rio de Janeiro 1956, p. 15).

Tratando da questão do pecado, disse:

“Se és um pregador da graça, então pregue uma graça verdadeira, e não uma falsa; se a graça existe, então deves cometer um pecado real, não fictício. Deus não salva falsos pecadores. Seja um pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente ainda…Se estamos aqui (neste mundo) devemos pecar… Pecado algum nos separará do Cordeiro, mesmo praticando fornicação e assassinatos milhares de vezes ao dia” (American Edition, Luther’s Works, vol. 48, pp. 281-82, editado por H. Lehmann, Fortress, 1963. ‘The Wittenberg Project;’ ‘The Wartburg Segment’, translated by Erika Flores, de Dr. Martin Luther’s Saemmtliche Schriften, Carta a Melanchthon, 1 de agosto de 1521).

Ainda sobre o pecado, o enaltecia em detrimento das boas obras (uma autêntica manifestação da Sola Fide?):

“Estas almas piedosas que fazem o bem para chegar ao céu não somente não o alcançarão, como serão arranjados entre os ímpios; e importa mais em impedi-los de fazerem boas obras que pecados” (Wittenberg, VI, 160, citado por O’Hare, in “The Facts About Luther”, TAN Books, 1987, p. 122).

No intuito de sufocar as revoltas dos camponeses, disse:

“Assim como as mulas não se movem até que seu dono lhe puxe as cordas, assim o poder civil deve conduzir as pessoas comuns, açoitá-los, enforcá-los, queimá-los, torturá-los e decapitá-los, para que aprendam a temer o poder estabelecido” (El. ed. 15, 276, citado by O’Hare, em ‘The Facts About Luther, TAN Books,1987, p. 235).

“O camponês é um porco, e quando um porco é abatido, ele está morto, e da mesma forma os camponeses não pensam sobre a vida futura, pois do contrário se comportariam de outra maneira” (‘Schlaginhaufen,’ ‘Aufzeichnungen’ p. 118, citado ibid., p. 241).

Referindo-se à adulteração bíblica em Romanos 1,17 (onde acrescentou a palavra “somente” na frase “O justo viverá pela fé”), disse:

“Se um papista lhe questionar sobre a palavra ‘somente’, diga-lhe isto: papistas e excrementos são a mesma coisa. Quem não aceitar a minha tradução, que se vá. O demônio agradecerá por esta censura sem minha permissão” (Amic. Discussion, 1, 127,’The Facts About Luther,’ O’Hare, TAN Books, 1987, p. 201).

Eis as diferenças: os santos unificam, os hereges separam. Os santos reconstroem, os hereges destroem. Os santos amam, os hereges odeiam. Enfim, os santos crescem em virtudes, os hereges caem de pecado em pecado. Os homens são conhecidos por suas obras; e a divisão da Cristandade foi a “obra”, o “legado” dos reformadores.

Disse nosso Senhor que a boca fala do que o coração está cheio (São Mateus 12,34). De que estava cheio o coração de Lutero quando proferiu tais palavras?

Quem puder entender, entenda…

Os erros da Sola Scriptura

João Calvino em Genebra

A Reforma Protestante parece ter ido muito além daquilo que seus líderes imaginavam. Hoje, há uma multiplicidade incrível de seitas e doutrinas divergentes, cada qual apresentando sua concepção particular da fé cristã. Ora, todas as denominações oriundas da Reforma dizem pautar seus ensinamentos somente na Sagrada Escritura – o princípio protestante conhecido como Sola Scriptura –, que consideram a única e fundamental regra de fé e prática dos cristãos*.

Dizem os protestantes que só se pode chegar ao conhecimento da verdade através do livre exame das Escrituras; e uma vez que esta “verdade” é conhecida, deve ser aceita e praticada concomitantemente com outros que partilham de ideias semelhantes. Define-se tal prática de maneira genérica: “congregar em uma igreja” – de preferência aquela que, supostamente, está mais próxima da “verdade bíblica”, ou, pelo menos, aquela onde o crente ‘se sente bem’ –, sem que sejam exigidas algumas credenciais necessárias, como “Qual é a origem desta igreja?”, ou “Com que autoridade este pastor ensina tais coisas?”, etc. Enfim, os critérios não são seguros o bastante: basta que o crente “aceite Jesus”, ainda que sua concepção acerca da Pessoa de Cristo difira em muitos pontos daquela defendida por outros que passaram pelo mesmo processo, mas que chegaram a conclusões diferentes, e, inevitavelmente, contraditórias entre si.

Ora, nós não cremos desta maneira. Para os católicos, a fé, a religião verdadeira, não permite divisões e “interpretações particulares”. Tampouco cremos que o conhecimento da verdade se dá através de uma leitura individualista das Escrituras. Do contrário, o que dizer de Abraão? De Paulo? Todos eles se converteram não através da leitura de livros sagrados, mas sim de encontros concretos com Deus.

Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo nos deixou um porto seguro, a Igreja; cremos que a verdade é sustentada nela e por ela, de tal forma que é digna de ser chamada de “sustentáculo da verdade” por São Paulo (1Tm 3,15). A Igreja é a garantia de que nenhum outro evangelho será pregado, ainda que um anjo baixado do Céu ouse fazê-lo (Gl 1,8). E é com Pedro e sob Pedro – e seus sucessores – que se dá esta comunhão plena, uma vez que ele foi estabelecido como rocha, isto é, fundamento visível da unidade da Igreja de Cristo, (Mt 16,18), pastor do povo de Deus (Jo 21,15-17) e guardião da fé (Lc 22,32).

O Papa é o ponto de referência da unidade eclesial. Onde está Pedro, aí está a Igreja, dizia Santo Ambrósio. Esta realidade orgânica, substancial, indelével e imutável é fundamental para a reta compreensão do depósito da fé. O Papa, ouso dizê-lo, é o coração da Igreja. Nele, pulsam as verdades de fé, que irradiam para o mundo sob a luz do Espírito Santo. Se a Igreja é o Corpo de Cristo, Cristo é a Cabeça da Igreja e o Papa é a boca de Cristo; não há como separá-los. Não se pode falar da Igreja sem o Papa, do Papa sem a Igreja, nem de Cristo sem ambos.

A divisão da humanidade na Torre de Babel se deu por um ato de desobediência, pois esta desejava alcançar o Céu e tornar célebre o seu nome (Gn 11,4). Portanto, cometeram o pecado da soberba, sendo castigados por Deus. Curiosamente, os reformadores também se tornaram soberbos e receberam o devido salário pelo seu orgulho; hoje, os protestantes são divididos em milhares de seitas. Este é o fim certo de uma obra meramente humana: tais “pastores” não receberam qualquer mandato divino, e toda a estrutura de sua fé depende de uma interpretação das Escrituras baseada somente na razão natural, ao passo que homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus (IIPd 1,21).

Devemos avaliar a árvore pelos seus frutos (Mt 7,16). E quais são os frutos da Sola Scriptura? Constante divisões, rixas e, consequentemente, o caos e o relativismo religioso. Evidentemente, o cenário atual da Cristandade não era desejado por nosso Senhor, que rezou pela unidade da Igreja: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste(Jo 17,21).

Como atesta a Escritura, a divisão dos cristãos é um descrédito para o Cristianismo. Se devemos ser perfeitos na unidade para que o mundo reconheça que Cristo foi enviado pelo Pai para a nossa salvação (Jo 17,23), o que pensam os não cristãos sobre um povo que, embora manifeste a fé no mesmo Messias, é incapaz de dar um testemunho digno, conforme os princípios bíblicos?

“Sejam perfeitos na unidade”, disse o Senhor; e não ordenou que houvesse uma unidade em âmbito local apenas, mas universal. A unidade das igrejas particulares deve se estender a nível mundial. Na verdade, esta unidade local é um mero reflexo da unidade substancial da Igreja em sua estrutura visível. A Igreja deve ter um coração e uma só alma (At 4,32), pois crê em um só Senhor, uma só fé e um só batismo (Ef 4,5).

O Protestantismo se assemelha a um espelho quebrado: as seitas equivalem aos cacos espalhados pelo chão, todos com “formatos” (doutrinas) específicos, que se originam da interpretação arbitrária e subjetiva de cada crente. Não é possível encontrar uma unidade teológica, um mesmo e único rosto de Cristo, pois as concepções doutrinárias de cada seita seguem a linha de pensamento de seus respectivos fundadores. Nestas comunidades separadas, Cristo é o que cada heresiarca “pensou” Dele, e não simplesmente o que Ele “é”.

Assim, os pontos em comum a partir dos quais os protestantes reclamam uma suposta “unidade espiritual”, em uma “igreja invisível”, são supérfluos: a consequência de se interpretar a religião de um modo diverso conduz às mais variadas formas de se viver a fé. E isto, de modo algum, consiste em uma verdadeira unidade, pelo menos não aquela desejada por nosso Senhor: “… que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste(Jo 17,23).

Neste caso, a defesa da Sola Scriptura se torna duvidosa, uma vez que não há uma pura dependência da Bíblia Sagrada como regra de fé e prática: tal doutrina serve apenas para fundamentar a interpretação que um determinado indivíduo faz das Escrituras. Assim, deve-se adequar a Palavra de Deus a um conjunto de ideias preconcebidas, e não sujeitar a própria inteligência à revelação divina.

Porém, em meio às trevas do relativismo, brilha uma luz: a luz da Igreja Católica Apostólica Romana, Mãe e Mestra espiritual de todos aqueles que depositam sua esperança em Jesus Cristo, Redentor da humanidade através de Seu sacrifício expiatório na cruz.

Ao contrário dos protestantes, é fundamental para os católicos situar a Sagrada Escritura na realidade eclesial, em sua correlação com a Tradição e o Magistério perene da Igreja: para nós, não é possível falar de Bíblia sem a Igreja. Daí a origem do que professamos no Credo: Creio (…) na Santa Igreja Católica“.

A Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério são “extensões” da Palavra viva de Deus, que é Jesus Cristo (Jo 1,1). Estes elementos, que, em sua intrínseca união, dão forma ao corpo da sã doutrina, são expressões limitadas da única e absoluta Palavra de Deus; com efeito, Jesus Cristo é a Palavra permanente de Deus no coração da Igreja, elucidando as verdades da fé de modo gradual e contínuo, através da reflexão teológica e do parecer dos legítimos pastores do Povo de Deus. Afinal, foi isto que o próprio Senhor prometeu à Sua Igreja: a eterna assistência do Paráclito, o Espírito Santo (Jo 16,13).

Logo, a Palavra não consiste somente naquilo que foi transmitido por escrito; de fato, por palavra não se compreende somente a expressão de algo por escrito, mas também uma expressão verbal. Cremos que a Bíblia é um (e não o) dos meios que Deus utiliza para comunicar a Verdade à Igreja; entretanto, esta Palavra é, acima de tudo, uma Pessoa, que se relaciona com os a Igreja ao longo da história. Portanto, a Palavra de Deus está na Bíblia, assim como está na Tradição e fala através do Magistério da Igreja, responsável por transmitir a Verdade de modo infalível.

Toda a problemática da Sola Scriptura se resume ao princípio da autoridade. Os protestantes não admitem um ponto fixo de referência – no caso, o Sagrado Magistério, composto pelo papa e os bispos em comunhão com ele –, o que torna o Protestantismo uma religião flexível o bastante para dar origem a mutações teológicas constantes: enquanto a evolução dos dogmas católicos se dá no contexto da realidade eclesial, onde as hipóteses teológicas são sempre incorporadas ou condenadas pela Igreja, o Protestantismo é fragmentado, dando origem a orientações teológicas diversas, e que entram em choque entre si, como já elucidado anteriormente.

É a consequência natural do relativismo… ideias divergentes não podem coexistir de maneira harmônica: ou a Verdade é ou não é. Há somente o falso e o verdadeiro, o sim e o não, como ensinou o Senhor (Mt 5,37). Se existe uma multiplicidade de explicações contraditórias para uma mesma questão, é preciso buscar a Verdade abdicando das hipóteses falsas, a fim de que ela se torna nítida o bastante; e uma vez reconhecida, ela deve ser abraçada e colocada em prática.

Os protestantes costumam citar inúmeros versículos, que, supostamente, dão suporte à Sola Scriptura. Será que a Sagrada Escritura realmente expõe de maneira explícita esta doutrina? Vejamos alguns dos principais argumentos dos protestantes:

1. Paulo ensina que toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino. Logo, tudo aquilo que está fora da Bíblia deve ser rejeitado.

Esta é uma das objeções mais comuns. Segundo os protestantes, em 2Tm 3,16-17, o Apóstolo dos Gentios dá ênfase à Palavra de Deus transmitida por escrito em detrimento da Palavra transmitida oralmente através da Tradição. Vejamos o que diz o texto na íntegra:

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra“.

Como se vê, em momento algum é possível concluir que São Paulo se refere “somente” às Escrituras; é nítida a ênfase na inspiração divina da Palavra de Deus, mas não há uma alusão a ela como suprema e única regra de fé e prática. Ora, como é possível chegar a tal conclusão se Paulo sequer tinha em mente o cânon bíblico juntamente com os livros do Novo Testamento?

Afinal, à época em que São Paulo escreve sua segunda epístola a Timóteo, a Igreja não contava com a relação definitiva de livros que formam a Bíblia, o que só aconteceria em meados do IV século da era cristã! Se aplicarmos esta sentença paulina no sentido desejado pelos protestantes, deveríamos considerar tão somente a revelação veterotestamentária, que era ao que o apóstolo estava se referindo nesta ocasião.

Podemos colher deste versículo somente duas informações relevantes:

a) que toda a Escritura – embora não ela somente – é inspirada por Deus;

b) e, consequentemente, útil para a refutação, correção e formação espiritual.

Logo, 2Tm 3,16-17 não corrobora com a Sola Scriptura. Apenas enfatiza o caráter inspirado das Escrituras sagradas.

2. Não seguimos religiões organizadas por homens. A nossa religião é Jesus Cristo e Sua Palavra, a Bíblia.

Não é incomum se deparar com estas afirmações. Mas elas, em si mesmas, são absurdas.

Afinal, o que é religião? Ou melhor, de quem ela procede? É evidente que Cristo não uma “religião”, e sim uma Pessoa. Do mesmo modo, a Bíblia é parte da religião, mas ela mesma, individualmente, não é “a” religião. Pode-se dizer apenas que os ensinamentos de Cristo convergem para a prática de uma fé específica.

A religião é um composto complexo de elementos: espaços destinados ao culto, uma organização hierárquica (isto é, uma liderança religiosa), uma doutrina, ritos e fontes das quais esta mesma doutrina se nutre e é elaborada. Se um protestante diz que não segue uma religião “organizada por homens”, simplesmente está negando todos os elementos necessários a qualquer religião, sobretudo tratando-se do Cristianismo, além de atentar contra a lógica.

Logo, o que se pode dizer é que Jesus Cristo é o autor da religião, enquanto a Bíblia é um dos elementos que formam o corpo da religião cristã. Já no Antigo Testamento está escrito que o Messias ensinaria à humanidade a “verdadeira religião” (Is 42,1).

Também é verdade que todas as denominações protestantes possuem fundadores humanos, e boa parte de suas doutrinas se originaram das interpretações que eles mesmos fizeram da Sagrada Escritura. Logo, negar isto é também uma grande contradição.

3. A Igreja Católica, ao longo da história, criou tradições estranhas à Palavra de Deus e as incorporou em sua doutrina.

Naturalmente, a Igreja seguiu seu curso e antecedeu a formação de um cânon bíblico. Os protestantes, erroneamente, concluem que a Igreja se resume ao que é narrado nas Escrituras, que o Espírito Santo teria se calado após a conclusão do último versículo de Atos! (considerando que mesmo a divisão da Bíblia em capítulos e versículos trata-se de um adendo tardio, a fim de facilitar seu estudo)

Como foi dito anteriormente, nosso Senhor prometeu à Igreja a eterna assistência do Espírito Santo (Jo 16,13). Não há um período limitado de reflexão e elucidação: a missão da Igreja é permanente; logo esta reflexão teológica é permanente. Daí nascem as exposições dogmáticas definitivas da Igreja, fundamentadas na reflexão da Palavra de Deus (oral e escrita), sob a moção do Espírito Santo.

A Igreja não proclama dogmas senão com a intenção de explicar melhor e de maneira mais profunda a mesma e definitiva revelação divina: não são acréscimos posteriores, mas sim uma exposição madura e mais abrangente de um dogma já estabelecido. Daí o intervalo que separa a definição solene de um dogma daquele que o precede e dos que o sucedem, pois todos nascem de uma reflexão cautelosa e orante das verdades cristãs. Embora certa de que conta com o auxílio direto de seu Divino Fundador, a Igreja é cuidadosa e humilde quando se exige uma posição definitiva de sua parte.

A própria Escritura narra que os apóstolos, a fim de discutir determinados temas controversos acerca da doutrina cristã, se reuniram em um concílio, em Jerusalém (At 15,4-21). Ora, não deveriam simplesmente colocar em prática os ensinamentos de Cristo? Sim e não. Sim porque estes mesmos ensinamentos são objetivos em sua dimensão prática. E não porque exigem uma reflexão aprofundada à medida que falam da natureza e da Pessoa de Cristo, conduzindo, inevitavelmente, a sentenças definitivas acerca de Sua identidade. Desta forma, os apóstolos nos ensinam que a prática deve estar sempre sujeita ao dogma; do contrário, não se trata de fé verdadeira, mas de ações meramente filantrópicas, sendo a dimensão religiosa uma realidade meramente subjetiva.

4. Não existe qualquer referência à tradição na Bíblia. Pelo contrário, Cristo a condenou dizendo: “… violais os preceitos de Deus por causa de vossa tradição” (Mt 15,3).

Os protestantes, erroneamente, confundem a Tradição por excelência – aquilo que os apóstolos transmitiram oralmente como parte da revelação – com as tradições humanas oriundas dos ardis farisaicos, que visavam, mediante uma suposta “consagração” de um ou mais objetos a Deus, não socorrer os pais em suas necessidades; Jesus também condenou os aspectos puramente exteriores da religião, explicando que o ato de lavar as mãos não os tornava puros em espírito (Mt 15,15-20).

Evidentemente, estamos diante de duas concepções distintas do que é “tradição”. Ora, compreende-se por Tradição, em seu sentido pleno e legítimo, aquilo que foi transmitido oralmente “pelos apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e instituições, transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo” (Cat. § 76).

Com efeito, o Novo Testamento enfatiza que a religião foi transmitida oralmente e por escrito. Duas fontes distintas, mas intrinsecamente unidas. Em sentido metafórico, podemos dizer que, se a Igreja é o Corpo de Cristo, do mesmo modo a Bíblia e a Tradição são os “braços” deste corpo: ambos procedem do mesmo Corpo, estão à serviço Dele, mas cada qual em seu próprio lugar, sem que haja contradição alguma entre ambos.

Esta sentença está claramente exposta na Sagrada Escritura, sendo exposta de maneira mais clara por São Paulo:

“… guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito(2Ts 2,15)**

Logo, é evidente que há uma Tradição legítima, que deve ser distinguida das tradições condenadas por nosso Senhor. Do contrário, seríamos obrigados a perceber uma aparente contradição, conclusão que, de imediato, deve ser descartada.

* * *

Conclusão

O presente texto, bastante modesto em sua abrangência, limitou-se a expor somente alguns aspectos da Sola Scriptura e suas evidentes contradições. Teria muito mais a dizer; porém, limitei-me às questões fundamentais e, de maneira didática, busquei esclarecer os pontos que considero mais importantes.

Julguei importante fazê-lo para que nos lembremos: embora a Sagrada Escritura nos ensine a doutrina de Cristo, em momento algum diz que ela é um “manual” que contém tudo aquilo que se deve crer e fazer. Se isto fosse verdade, não haveriam milhares de seitas cristãs reclamando para si uma pretensa “verdadeira interpretação” da Bíblia, que só é possível na Igreja de Cristo. Com efeito, Cristo se manifesta, vive e opera de diversas formas no seio de Sua Igreja; não é o Cristianismo a “religião do livro”, mas da Palavra viva de Deus, uma Pessoa concreta, com a qual nos encontramos através de diversos elementos interdependentes.

Em nome de uma pretensa liberdade, o Protestantismo tornou-se prisioneiro de sua própria natureza relativista, nos restando somente duas alternativas: ou condenamos a Palavra de Deus em prol de uma heresia, ou condenamos uma heresia por amor à Palavra de Deus.

Se Lutero desejava uma reforma e um suposto “retorno às Escrituras”, não alcançou tais metas, pois muitas das doutrinas que defendia são hoje rejeitadas por milhares de grupos protestantes. Portanto, a Reforma tornou-se um processo ininterrupto e extremamente variável, o que anula a sua credibilidade.

Rezemos, pois, pela Igreja, para que não cesse de transmitir a fé confiada de uma vez por todas aos santos (Jd 1,3). Rezemos pelo Papa, fundamento visível da unidade eclesial. Rezemos pelos nossos irmãos separados, na esperança de, um dia, comunguemos do mesmo Corpo e Sangue do Senhor.

E, acima de tudo, lembremo-nos de que há um só Senhor, uma só fé e um só batismo (Ef 4,5).

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Notas:

* Isto enquanto fonte da revelação divina, e não no que concerne à organização interna, aos usos e costumes.

** Texto conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulus, 6ª impressão, 2010), que transmite melhor o sentido da doutrina católica.

Finalmente…

Eis o primeiro post deste sítio. Há cerca de dois anos, tive a ideia de criar um blog, onde eu pudesse compartilhar artigos e reflexões acerca da religião católica. O projeto ficou na gaveta durante algum tempo. Somente agora – em julho de 2015 – pude colocá-lo em prática, o que não foi fácil: até então, mesmo após os três anos que se seguiram desde a minha conversão, não obtive os conhecimentos necessários para fazê-lo, além de ter de contornar a escassez de tempo.

Contudo, decidi arriscar, e eis-me aqui! Alerto, desde já, que meus futuros leitores – quer muitos, quer poucos – não devem buscar neste blog a refinada erudição de um teólogo, tampouco as reflexões complexas de um filósofo. Sou como uma folha à deriva do vento: levado para onde a minha inteligência me guia, sem me preocupar tanto com meu destino final. Pesquisando aqui e ali, elaboro meus textos, tentando expor, da maneira mais clara possível, o que aprendi.

Esclareço também que este espaço não é meu somente, mas de todos aqueles que, de alguma forma, se beneficiam de seu conteúdo. Estou aberto a críticas, sugestões e correções, desde que fundamentadas na caridade fraterna. O objetivo do Catolicismo Puro & Simples é servir a Igreja da melhor maneira possível.

Sou, acima de tudo, seu irmão em Cristo. E mesmo que nos limitemos a estabelecer laços somente no mundo virtual, formamos, no coração da Igreja, uma só alma em nosso Senhor.

Por Cristo, com Cristo e em Cristo,

Orlando Alves